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Efeitos da falta de sono

O efeito geral da falta de sono é bem conhecido: quem fica mais de 18 horas consecutivas sem dormir tem afetados os reflexos, a memória a curto e longo prazos, a capacidade de concentração, a habilidade de tomar decisões. O processamento matemático, a velocidade cognitiva e a orientação espacial. Se o número de horas cair para cinco ou seis por noite por vários dias seguidos, tais efeitos negativos se intensificam (a provação do sono está na raiz de vários males físicos, de pressão alta a obesidade). Apesar disso a cultura corporativa ainda confunde falta de sono com vitalidade e alto rendimento. Um executivo ambicioso trabalha 80 horas por semana, dorme cinco ou seis horas por noite e bebe, por dia, oito xícaras de café (segunda commodity mais vendida no mundo, atrás apenas do petróleo). Um negociador pega o vôo da madrugada e depois acelera o carro alugado por ruas desconhecidas para chegar a tempo a uma importante reunião de F&A às 8 da manhã. Uma pessoa dessas coloca a si próprio, colegas, empresa e público em geral em grave perigo, diz Charles A. Czeisler, titular da cátedra Baldino Professor os Sleep Medicine na Harvard Medical School.

Para o médico, estimular a cultura do profissional que não dorme é pior do que insensato: é perigoso - e a antítese da gestão inteligente. Czeisler observa que, embora, adotem todo tipo de política voltada a proteger o funcionário - regras contra fumo, bebida, drogas e assédio sexual no local de trabalho, as empresas às vezes levam o pessoal Í beira da autodestruição. Induzir uma pessoa a estar "ligada" praticamente 24 horas por dia produz um nível de incapacitação tão perigoso quanto o da intoxicação. O recado de Czeisler, para dirigentes empresariais é simples: para melhorar tanto seu desempenho como o da organização é preciso estar atento a essa questão biológica fundamental. O que dizem as mais recentes pesquisas sobre a fisiologia do sono e o desempenho cognitivo ? Nosso desempenho cognitivo é afetado por quatro grandes fatores ligados ao sono.

Seção: Outra Voz, págs 28 a 33

O trabalho e o calendário de viagens do executivo moderno são um grande entrave Í capacidade desse profissional de funcionar bem, dados esses fatores. • Primeiro grande fator - Está ligado à necessidade homeostática de sono noturno, ditada em grande medida pelo número de horas consecutivas de vigília. O homem acumula, ao longo do dia, uma necessidade crescente de sono. Quando estamos sonolentos, o cérebro pode assumir o controle involuntariamente. Quando a pressão homeostática para dormir se torna alta o bastante, entram em ação no cérebor milhares de nerônios do sono, conforme descobriu Clif Saper, da Harvard Medical School.

Quando isso ocorre, o sono toma conta do cérebro e passa a ser o piloto. Se a pessoa está no volante do carro, bastam três ou quatro segundos para sair da pista. • Segundo grande fator - Está ligado ao total de horas dormidas ao longo de vários dias. Quem dorme no mínimo oito horas por noite seria capaz de manter estável o grau de alerta durante o dia. Já quem tem algum distúrbio do sono ou dormiu pouco por muitos dias começa a acumular um déficit que dificulta o funcionamento do cérebro. Se dormir em média quatro horas por noite durante quatro ou cinco dias, a pessoa acaba com o mesmo grau de deficiência cognitiva que exibiria se estivesse sem dormir há 24 horas - o equivalente ao estado de embriaguez. Em dez dias o efeito seria o mesmo sentido por alguém que não dorme há 48 horas. Isso aumenta consideravelmente o tempo de ação, afeta o juízo e interfere na resolução de problemas.

Em tal estado de privação de sono, uma única cerveja pode ter o mesmo impacto sobre a capacidade da pessoa de sustentar o desempenho do que seis cervejas teriam em um indivíduo descansado. • Terceiro grande fator - Está ligado ao ritmo circadiano, Í quela hora do dia em que o corpo indica que é meia-noite ou que amanheceu. Um dispositivo neurológico, o chamado relógio circadiano, atua em paralelo e, paradoxalmente, em oposição ao impulso homeostático do sono. Esse relógio acusa a maior necessidade de sono pouco antes do horário típico em que despertamos, e a maior necessidade de vigília entre uma e três horas antes de irmos dormir, justo quando a necessidade homeostática do sono está no ápice. Não se sabe porque isso acontece, mas uma hipótese seria que, diferentemente de outros animais, não tiramos cochilos frequentes ao longo do dia. No meio da tarde, quando a necessidade homeostática de sono já é razoável, o sistema circadiano ainda não entrou em ação.

É, em geral, a hora em que a pessoa se sente tentada a tirar uma soneca ou tomar um café ou refrigerante. A cafeína bloqueia temporariamente os receptores cerebrais que regulam a necessidade do sono. Depois disso, com o avançar do dia, o relógio circadiano envia um estímulo crescente Í vigília • Quarto grande fator - É a chamada "inércia do sono". Í‹ a sensação de letargia que a maioria sente ao acordar. A parte do cérebro responsável pela consolidação de memória não funciona bem nos primeiros 20 minutos de vigília e só alcança a eficiência máxima duas horas depois de a pessoa ter acordado. Há um período de transição entre a hora em que se desperta e a hora em que o cérebro fica plenamente funcional. É verdade que com a idade fica mais difícil dormir? Sim. Depois do 40 anos o sono fica muito mais fragmentado. É mais fácil a pessoa ser desperta por perturbações como ruídos do ambiente externo e por crescentes dores e desconfortos. Outra coisa que aumenta com a idade é o risco de distúrbios do sono, como a síndrome das pernas inquietas, a insônia e a apnéia do sono (interrupção da respiração durante o sono). Além disso, muita gente ganha peso com a idade. Curiosamente, a privação crônica se sono aumenta os níveis de hormônios do apetite e do stress, reduz a capacidade do organismo de metabolozar glucose e eleva a produção de grelina, o hormônio que aumenta o desejo de carboidrato e açúcar - o que engorada e aumenta o risco de apnéia do sono, criando um ciclo vicioso.

Para certos pesquisadores a epidemia da obesidade nos Estados Unidos e em outros países estaria ligada Í privação crônica de sono. Além disso, distúrbios respiratórios durante o sono elevam o risco de pressão alta e de doenças cardíacas, devido ao esforço feito pelo coração por causa do corte constante do fluxo de oxigênio durante a noite. A privação do sono seria, algo muito mais sério do que julga a maioria dos executivos? Sem dúvida. Fico surpreso ao ver que a cultura social e de trabalho contemporânea louva a privação do sono, assim como um dia, glorificávamos quem exibia alta resistência ao álcool. Hoje sabemos que ficar 24 horas sem dormir ou passar a semana dormindo de quatro a cinco horas por noite tem o mesmo efeito sobre o organismo que uma concentração de álcool de 0,1%. Nunca diríamos "Que ótimo trabalhador, sempre bêbado!", mas valorizamos quem sacrifica o sono. A analogia é válida porque assim como o indivíduo alcoolizado quem não dorme bem não tem idéia de sua deficiência funcional.

Além disso, a eficiência no trabalho cairá bastante, agravando o fenômeno "presenteísmo" (veja artigo Presentísmo: trabalhando mas sem cabeça) - que traz enorme ônus econômico para as empresas. A privação do sono não é uma ameaça só àsaúde do indivíduo, mas àsaúde pública. Em estudo realizado por nossa equipe com médicos residentes em plantão por no mínimo 24 horas consecutivas, concluímos que a chance de que se ferissem com agulhas ou bisturis subia 61%, o risco de acidente com veículos crescia 168% e o risco de erros quase fatais ao volante saltava 460%. Nos Estados Unidos, motoristas sonolentos respondem por um quinto de todos os acidentes e cerca de 8 mil mortes todos os anos. Para a empresa, a privação do sono traz ainda outros tipos de riscos. Uma pessoa que não dorme o necessário faz coisas que nenhum presidente em sã consciência permitiria. Há no mundo todo. Gente exausta operando maquinário pesado e perigoso ou cuidando da segurança de instalações de altíssima importância.

Um gestor, em geral inteligente e cortês, age como nunca agiria se estivesse descansado - pode explodir com os subordinados, tomar decisões equivocadas e prejudiciais Í empresa e apresentar informações confusas. O que uma empresa deveria fazer para atacar o problema? Assim como já foi feito com o cigarro e o álcool, é importante ter uma política que limite o horário de trabalho - o ideal é que não passe de 12 horas por dia e, em casos excepcionais, de 16 horas consecutivas. A cada 24 horas é preciso garantir, no mínimo, 11 horas de descanso consecutivas. Toda pessoa precisa de no mínimo um dia de folga por semana, idealmente dois em seguida para evitar o déficit de sono. Muitas vezes os superiores tentam racionalizar essa sobrecarga.

Já ouvi dizer que se pessoal não estiver no trabalho vai estar na farra e ficar sem descansar do mesmo jeito. Isso pode até valer para certos indivíduos irresponsáveis, mas não justifica impor uma carga excessiva de trabalho e impedir que a pessoa durma um número adequado de horas Programas educativos sobre sono, saúde e segurança deveriam ser obrigatórios. O trabalhador precisa aprender a reservar um número adequado de horas para dormir Í noite e manter o quarto escuro e silencioso, sem aparelhos eletrônicos, incluindo, TV, celular e por aí vai. E deveria ser orientado sobre os efeitos do álcool e da cafeína sobre o sono. Por último, recomendaria que supervisores fizessem um treinamento sobre sono e gestão de fadiga - e que promovessem bons hábitos na área. As pessoas devem aprender a tratar o sono de forma séria. Empresa e funcionários dividem a responsabilidade de garantir que todos venham para o trabalho descansados. NOVIDADES NO CAMPO DO SONO • Dormir é poder.

Descobertas recentes sobre ciclos de sono lançaram luz sobre o papel específico do sono na saúde e no desempenho em geral. Crescem os indícios, por exemplo, de que o sono contribui para o sistema imunológico, a consolidação da memória, o aprendizado e o bom funcionamento dos órgãos. "Certos pesquisadores hoje crêem que o sono pode ser o elo perdido na trinca, saúde, segurança e produtividade", diz Darrel Drobnich, diretor-sênior de assuntos governamentais e transporte da National Sleep Foundation. Um novo campo de estudos analisa a relação entre o sono e a produtividade e os benefícios daquilo que chamam "cochilo energético" - uma soneca de 20 minutos durante a tarde que evita problemas ligados ao déficit cumulativo de sono. • Acorda, motorista! Até o final da década as montadoras vão lançar veículos com dispositivos para evitar que o motorista sonolento durma ao volante. Alguns utilizarão câmeras para vigiar o movimento dos olhos do motorista ou sensores para detectar quando as mãos se afrouxam sobre a direção - e então disparar um alarme.

Em 2005 Ford e Volvo disseram que estavam trabalhando num sistema chamado Driver Alert, cuja base é uma câmera que mede a distância entre o veículo e a sinalização na superfície da estrada. Se o carro começa a dançar na pista, o alarme soa e surge no painel uma mensagem de alerta. Outra abordagem, em estudo pelo órgão americano National Highway Trtaffic Safety Administration, é a construção de estradas "inteligentes" dotadas de sensores especiais que monitorem de forma constante a trajetória e a velocidade do veículo.


Fonte: Harvard Business Review / http://www.cph.com.br/corporativa_artigos6.php