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Pesquisa compara qualidade de sono no interior e em grande capital


Objetivo de pesquisa da USP é investigar efeitos do sono sobre a saúde. ‘A gente está dormindo cada vez pior’, diz diretor do Laboratório do Sono.

João Barbosa, 39 anos. Um nordestino, que como tantos outros, veio batalhar pela vida na cidade grande. João é pernambucano de Timbaúba.  Trabalha como porteiro em um bairro nobre de São Paulo há quase 20 anos. Ele dorme pouco e sonha acordado. “Com uma vida melhor, com uma vida melhor”, diz ele.

Muitas vezes, quando termina o trabalho de porteiro, o João muda de roupa e de função. Ele é motorista particular nas horas vagas.

Globo Repórter: João, você sempre tem trabalho como motorista?
João: Sempre, sempre tenho, sempre que eu preciso também tenho.
Globo Repórter: Você acaba acumulando duas funções então?
João: isso.
Globo Repórter: E o sono não atrapalha não?
João: Às vezes se eu falar que não sinto cansaço eu estou mentindo, mas dá pra aguentar.

João dorme entre quatro e cinco horas por dia. E se falta tempo para dormir, será que sobram algumas horas para família?

João: Sobra, sempre aparece um pouquinho, até porque se eu não tiver trabalhando eu tô com eles.
Globo Repórter: Ângela, às vezes ele tá muito cansado?
Ângela Paiva de Lima, caixa de supermercado: Sim, durante a semana é muito corrido, final de semana também, que ele trabalha final de semana também. Mas sempre que dá a gente tá junto, almoça junto.

 

Exercícios físicos amenizam efeitos de noites mal dormidas 

A esposa Ângela e o filho Breno notaram que os efeitos das noites mal dormidas foram amenizados depois que o João começou a fazer exercícios físicos por recomendação médica.

“Ele melhorou muito o humor, várias coisas, ele perdeu muito peso também que é um resultado muito bom, e ele melhorou também no sono. Antigamente, ele tinha uma dor nas costas que era insuportável e a academia ajudou muito ele”, conta Breno Barbosa de Lima, estudante. 

João está dormindo melhor, mas ainda dorme pouco. E o porteiro não é o único a passar as noites em claro na cidade grande. Durante a noite em São Paulo, a cidade desacelera, se prepara para dormir, mas só uma parte dos moradores consegue pegar no sono. Segundo uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, 83% dos paulistanos se queixam de problemas para dormir.

O problema é que estamos dormindo cada vez menos. Em pouco mais de um século deixamos de dormir mais de duas horas por noite. É muito sono perdido, afirma quem é doutor no assunto.

“Em 1900 a gente dormia em média nove horas, na cidade de São Paulo recentemente, menos do que sete horas. Além de dormir menos, a gente está dormindo cada vez pior”, afirma o diretor do Laboratório do Sono - Incor Geraldo Lorenzi Filho.

“Quem não dorme bem hoje, amanhã está mal humorado. Cronicamente, ou seja, depois de um mês, dois meses, dois anos, quatro não dormindo bem seu sistema imunológico diminui”, explica o professor de medicina do sono – Unifesp Marco Túlio de Mello.


Jeito tranquilo de encarar a rotina faz toda a diferença no sono

Qual é a relação entre o sono e qualidade de vida? Como o stress, a correria, a falta de tempo e os compromissos afetam os moradores da cidade grande na hora de dormir? E na cidade pequena, seria diferente. O Globo Repórter saiu de São Paulo e foi até Baependi, uma cidade com pouco mais de 18 mil moradores no Sul de Minas Gerais, para conferir como a calma, o sossego e o jeito tranquilo de encarar a rotina fazem toda a diferença no sono de quem vive por lá.

Em Baependi, o engarrafamento é de canários da terra e o barulho vem da natureza, em forma de cachoeiras. Quem vive na cidade não costuma se queixar de problemas para dormir. Pelo contrário, tem gente que dorme que é uma beleza.

Francisco Faria de Souza, artesão: Eu durmo dez horas por noite.
Globo Repórter: Acorda novo?
Francisco: Acordo novo.
Globo Repórter: Dormir no interior é mais gostoso?
Francisco: É mais gostoso. Dorme cedo, né?!.

Dorme e acorda muito cedo. É só chegar na praça principal da cidade às 7h para ver como tem gente.

Globo Repórter: Quando é que já não tem mais movimento nas ruas?
Rerisson Faria Lima, coordenador local da pesquisa: Por volta de 21h, 22h, dificilmente você vai encontrar alguém na rua.

Um dos responsáveis por essa pesquisa é Malcolm Von Schantz. Ele é professor da Universidade de Surrey, na Inglaterra, e professor visitante da Universidade de São Paulo. “A pesquisa em Baependi talvez seja única no mundo. A cidade tem um estilo de vida que é mais ligado ao ritmo do sol. E a população está colaborando muito com a equipe do Incor, há nove anos. Já temos uma incrível reunião de dados”, diz Malcolm Von Schantz, professor da Universidade de Surrey.


Pesquisa investiga os efeitos do sono sobre a saúde

O objetivo da pesquisa é investigar os efeitos do sono sobre a saúde. Foram avaliados 2,4 mil moradores - 13% da população. Os pesquisadores foram de casa em casa e chegaram aos moradores da área rural. Seu Dênis e a mulher, Zélia, toparam participar. Eles dormem cedo, logo depois do jantar com a família.

Dênis dos Santos, dono de sítio: oito e meia, nove horas, por aí.
Globo Repórter: Para acordar?
Dênis: Quatro horas.
Globo Repórter: Sempre assim?
Dênis: Sempre assim.
Globo Repórter: Dormindo cedo para acordar cedo?
Dênis: Isso.
Globo Repórter: Zélia, você dorme bem?
Zélia dos Santos, mulher do Dênis: Durmo muito bem.
Globo Repórter: E também você trabalha muito então chega à noite, o cansaço, você não aguenta.

Em uma das noites, a técnica de enfermagem traz os equipamentos para o sítio onde vivem o Dênis e a Zélia, para fazer o exame que vai investigar os distúrbios do sono.

Globo Repórter: O que você vai monitorar com todos esses equipamentos?
Rafaela Maciel Neves, técnica de enfermagem: Esse equipamento é para ver se a pessoa tem apneia obstrutiva do sono, várias pessoas tem esse problema e não sabem. Através desse exame dá para poder verificar se a pessoa tem esse problema.
Globo Repórter: Você acha que vai dormir com isso tudo aí, Zélia?
Zélia: Dá para dormir.
Globo Repórter: Boa noite então.
Zélia: Obrigada.
Globo Repórter: Bom sono para vocês.


Alternância de claro e escuro regula o relógio biológico 

O despertador do sítio canta alto. A rotina no sítio começa bem antes do sol nascer. É preciso acordar bem cedo, às 4h da madrugada. O Dênis vai ter um dia longo pela frente. Trinta e quatro vacas leiteiras já estavam esperando para tirar o leite. Como o pai e o avô já faziam, o Dênis cuida das vacas e dos bezerros, em uma rotina acelerada.

Globo Repórter: Quer dizer que ele vai continuar em atividade quando o sol clarear. É o sinal que o organismo espera para mostrar que está acordado.
Mario Pedrazzoli, biólogo e professor - USP: E para calcular o próximo, a hora de dormir, o próximo nascer do sol e assim por diante.

O corpo pede cama um pouco depois do escurecer. E prepara o acordar com a claridade da manhã. Essa alternância de claro e escuro regula o nosso relógio biológico. É o ciclo natural do sono na espécie humana. 

O trabalho na roça parece não ter fim. O pequeno intervalo é para fazer um lanche. E depois é correr para triturar o capim e alimentar o gado. O sono chega cedo pra quem precisa descansar e repor as energias. O resultado dos exames foi muito bom. E não poderia ser diferente.

“É razoavelmente esperado. Eles vivem ligados na natureza mais do que as pessoas que vivem no meio urbano, então isso favorece a um sono mais saudável”, afirma o professor Mário.

  

Fonte: http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2014/09/pesquisa-compara-qualidade-de-sono-no-interior-e-em-grande-capital.html