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Série Conexão Home Care: O Caminho para ter um hospital em casa


“Levem ele para casa e cuidem com o amor e o carinho que vocês já veem dando, até o dia que Deus vier buscá-lo”. Mais que um diagnóstico, a frase do oncologista caiu como uma sentença de morte na cabeça da família de Manoel Balbino, de 84 anos. E era! Restou a todos, depois disso, seguir o conselho médico. Sob os cuidados de duas técnicas em enfermagem dentro de casa, uma filha e outra neta, e preenchido pelo amor dos sete filhos, 20 netos e 24 bisnetos, foi no aconchego de sua cama que o aposentado passou os últimos dois meses de vida sem precisar mais cruzar nenhum corredor frio, solitário e triste de um hospital.



Mas, e quando o paciente crônico ou idoso não tem uma família tão grande e, principalmente, não tem em sua composição a existência de profissionais de saúde? O que fazer quando a dependência chega e precisa ser dividida com o dia a dia corrido e abarrotado de compromissos dos entes tão queridos, que mesmo cuidando e amando precisam dar continuidade as suas próprias vidas?

A resposta pode estar no home care, um serviço de suporte para pacientes que precisam de atenção especial, mas não necessitam, ou não querem, permanecer por dias, meses e até anos dentro de um hospital. A eficiência do acompanhamento consiste exatamente em levar para casa todo apoio logístico que seria encontrado em uma unidade de saúde.

De acordo com o diretor de fiscalização do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM), João Alberto Morais Pessoa, quem contrata esse tipo de serviço deve ter obrigatoriamente a assistência de, ao menos, um médico de plantão para atender urgências, uma coordenadora de enfermagem, pessoal treinado e equipamentos para dar suporte, além de hospitais referenciados para transferir o paciente, se houver necessidade.

“Para se colocar um hospital na casa de uma pessoa é preciso de oxigênio, técnico de enfermagem, médico fazendo visitas periódicas, medicamentos, às vezes, até monitoramento da frequência cardíaca e oxigenação. Chega-se perto de um quarto de hospital, porque o paciente que precisa está com sonda no nariz, utiliza equipamentos que precisam ser manuseados por pessoas preparadas”, informou.

Serviço bom, serviço caro

Com todo esse aparato o custo para contratar um home care é alto. A estimativa é de que o gasto seja superior a R$ 50 mil por mês. Apesar disso, segundo o presidente do CRM-PB, João Medeiros, a tendência é que haja uma expansão do serviço que, além de desafogar os hospitais, evita o risco de infecção hospitalar e mantém o paciente junto à família.

“A tendência é aumentar esse tipo de assistência, que é um suporte interessante para pacientes crônicos. O home care serve de apoio e é uma retaguarda para pacientes que não precisam de uma terapia intensiva”, constatou.

Falta fiscalização para o serviço

Um serviço caro e de uma responsabilidade superior a qualquer valor financeiro, já que se trata de vidas que estão sendo cuidadas. E no meio dele, um abismo: a falta de fiscalização. Os conselhos de Medicina (CRM), Enfermagem (Coren) e a Vigilância Sanitária só atuam quando há denúncias, o que raramente acontece. E para piorar, a falta de pessoal compromete a inspeção. O CRM, por exemplo, tem apenas três fiscais para cobrir todo o estado.

João Alberto Morais Pessoa, diretor de fiscalização do CRM, relatou que o Conselho tem uma co-responsabilidade no momento em que libera a empresa para funcionar, mas não tem condições de fiscalizar com frequência. “O CRM tem apenas três fiscais. Depois que atende aos pré-requisitos, liberamos o funcionamento. A Vigilância Sanitária também tem obrigação de fazer fiscalização, verificar se existe material, se há condição para funcionamento”.

O gerente da Vigilância Sanitária de João Pessoa, Alberto José dos Santos, disse que não há denúncias, mas ressaltou que isso não significa que não existam problemas. “As pessoas dependem do serviço e acabam não formalizando suas queixas”. Ele afirmou que existem cinco serviços de home care em João Pessoa.

Já o Ministério da Saúde…

De acordo com o Ministério da Saúde, como as casas dos pacientes são particulares e não órgãos da saúde, não são passíveis de fiscalização, exceto sob denúncia, quando inclusive os conselhos profissionais podem ser acionados. O Disque Saúde 136 também recebe reclamações, mas não há registro de nenhuma da Paraíba. No programa oferecido pelo SUS, deve haver monitoramento (e não fiscalização) dos serviços, tanto pelas informações enviadas ao MS, quanto por visitas regulares de técnicos dos estados aos municípios.

Denúncia e investigação no Ministério Público

No início desse mês, uma audiência do Ministério Público reuniu os conselhos e representantes de um home care da Capital por conta da morte de um paciente que, segundo a família, teria ocorrido por negligência. O caso ainda está em investigação. O advogado da empresa, Jorge Ribeiro Coutinho, disse que o home care, que é alvo de uma ação do Ministério Público, prestou toda assistência necessária e fez o possível para salvar sua vida.

“O enfermeiro entrou em contato com a ambulância, mas ele tinha uma condição clínica ruim. Era um paciente com câncer, metástase óssea. A situação era delicada. Às vezes, por uma questão emocional, a família entra com uma ação, mas ele estava conosco há quase dois anos e nunca houve pedido de substituição, o que significa que o serviço estava satisfatório”, completou. Ele acrescentou que o home care conta com 18 enfermeiros, 200 técnicos em enfermagem, 10 médicos e atende a 40 pacientes.

Home care no plano de saúde

A Agência Nacional de Saúde Suplementar informou que o home care, o tratamento em domicílio, não é um serviço obrigatório a ser oferecido pelos planos de saúde, exceto quando o item está claramente estabelecido no contrato entre operadora e beneficiário. Se estiver no contrato, o plano tem que cumprir. Caso contrário, o consumidor deve denunciar a operadora, que será imediatamente notificada pela ANS. Ela terá até 10 dias para resolver a situação. Caso o serviço não seja oferecido e houver indicação para internação, o plano deve continuar cobrindo a internação hospitalar.

Home care no SUS

Os pacientes do SUS também contam com assistência em casa, através do Programa Melhor em Casa, criado em 2011, pelo Ministério da Saúde. Os gestores locais são incentivados a cria os serviços de atenção domiciliar. As ações realizadas na casa do usuário incluem promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. O programa beneficia pacientes com necessidade de maior intensidade de cuidado e é realizada, no mínimo, uma visita semanal.

O objetivo é diminuir o tempo de internação, e os cuidados têm continuidade no domicílio, o que diminui as taxas de infecção hospitalar e possibilita maior rotatividade dos leitos, além de mais conforto para usuários e familiares. Os pacientes atendidos pelas equipes do Melhor em Casa podem ser encaminhados pelos hospitais, serviços de urgência e emergência e pelas Equipes de Saúde da Família.

Uma chance de ficar perto de quem se ama

Apesar da discussão sobre falta de fiscalização, quem contrata o serviço tem uma certeza: ele dá aos familiares a chance de ficar sempre por perto e aproveitar ao máximo a presença do paciente, do pai, mãe, irmão, enfim do familiar amado. Dá também à pessoa cuidada a oportunidade de terminar seus dias como seu Manoel Balbino, da história contada no início dessa reportagem.

No dia 29 de novembro de 2015, a 1h30 da madrugada, o aposentado deu seu último suspiro. Ao seu redor estavam, naquele momento, seis dos sete filhos e vários netos. Eles choraram a dor da perda, mas foram gratos por terem tido a oportunidade de segurar em sua mão pela última vez e de se despedir do seu patriarca. Ao mesmo tempo que sofriam, eles ‘celebravam’ o fato de Manoel ter terminado sua história envolto em muita dedicação e perto de sua esposa Rita, a quem dedicou amor durante 64 anos e 11 meses.


Fonte: Correio da Paraíba

http://conexaohomecare.com/home-care-o-caminho-para-ter-um-hospital-em-casa/